História

Em 1939, eclodia na Europa a Segunda Guerra Mundial. Os jornais noticiavam o avanço de Hitler. Despreocupados, alheios ao conflito que não atingia directamente o nosso país, um grupo de rapazes de Odivelas decidia fundar o “Odivelas Foot-ball OS GATINHOS“, clube precursor do ODIVELAS FUTEBOL CLUBE. Arrendando em casinha na Rua do Neto, nº1, entretinham-se a jogar uns com os outros, muitas vezes sem local determinado. Entre os sócios fundadores de “OS GATINHOS“, salientam-se o Celestino, o Adão e o Ilhéu. Em 1945, a Guerra terminava. Por coincidência “OS GATINHOS“, puseram fim à sua actividade nesse ano. Nessa altura Odivelas ainda era um conjunto de quintas, em que todos se conheciam. Apenas havia um projecto e mal se sabia, então que o sonho ir-se-ia tornar realidade. Asdrúbal Abel dos Santos, António Neves (Tonica), Victor Manuel dos Santos e José Fernando Reis de Carvalho foram os quatro sócios fundadores do clube, que em Julho de 1945 decidiram retomar o “ODIVELAS FUTEBOL CLUBE“.


A SEDE: Sede, já havia, por vinte cinco escudos. Mas onde arranjar dinheiro para pagar essa fortuna? No principio, os quatro avançavam com parte dos salários, mas a eles juntaram-se mais doze sócios e a imaginação resultou: obtiveram duas mesas de matraquilhos, no Parque Mayer, que foram instaladas no jardim, junto ao largo do Instituto. Cada jogo custava uma preciosa moeda de dois tostões e ao fim do dia os fundadores do clube vinham recolher as moedas. E para que as mesas não desaparecessem, faziam turnos em cada noite, dormindo junto a elas. Quando estava muito frio, em pleno Inverno, juntavam esforços e transportavam-nas, para a sede. António Neves (Tonica) teve outra ideia; passou a comprar garrafões de ginjinha, no Largo de São Domingos, na casa que ainda hoje existe e servia “eduardinhos” na sede. Para estimular o consumo, organizavam-se jogos de cartas, em que o vencedor bebia “eduardinhos”, à custa do vencido, em garrafões que tinham rápido consumo. Quem hoje passa pela actual sede, na Alberto Monteiro, e se escandaliza com as cartas e o amor Baco revelado por muitos dos frequentadores, ignora que já de há muito existia essa realidade, a exemplo de numerosas outras colectividades. Com o dinheiro dos matraquilhos e as receitas dos “eduardinhos”, o clube alugou botas, joelheiras e caneleiras no Arco do Cego. O Neves apanhava a camioneta da Arboricultura, junto ao cruzeiro; pagava vinte cinco tostões. Depois, regressava, carregado, logo que o jogo terminava, apressava-se a entregar o material, pois quanto mais tempo demorasse mais teria de pagar.


Equipamento, O Sonho de Possuir Material Próprio: Ao fim de algum tempo, estava reunido o dinheiro necessário. A Casa Sena na baixa junto ao Tribunal da Boa Hora, forneceu por encomenda os artigos já com as cores do clube, o preto e o encarnado. A aquisição do equipamento encheu de orgulho os sócios do Clube, que pediram a Eduardo Pereira Veríssimo, o proprietário de um restaurante à entrada do Largo D. Dinis (o prédio já foi demolido) que colocasse na montra as camisolas e os calções, para a população admirar e se entusiasmar com o Clube. Mas acabaria por ser o próprio Veríssimo quem mais se deixou contagiar pelo dinamismo do Clube. Ele viria a ser o principal dirigente e o grande obreiro do ODIVELAS FUTEBOL CLUBE, o homem que simbolizou a passagem do Clube à fase de crescimento. A primeira equipa a envergar o novo equipamento, em 1947, era constituída pelos seguintes jogadores: Asdrubal Abel dos Santos, João Patrocínio, Manuel Patrocínio, Francisco Martins, Júlio Pedrosa, Carlos Rato (Bobi), José da Graça, Orlando Silva Santos, Victor Manuel Santos (Negos), Manuel (Manelito) e Mário Luís. Os sócios pagavam de quotização vinte cinco tostões, que na altura era muito. Mas a população aderiu e em pouco tempo fizeram-se muitos sócios, não havia, no principio, uma verdadeira direcção, mas um conjunto de pessoas que estavam à frente do clube e que faziam tudo.


Apoios: Era então normal os adeptos apoiarem a equipa, deslocando-se em excursões às localidades da região: Bucelas, Santa Iria, Tojal, Loures – o Clube e particulares, como a Maria Rosa, Tia Alexandrina. e outros alugavam camionetas à Arboricultura e vendiam bilhetes. As camionetas partiam a seguir ao almoço, embandeiradas, em fila indiana. A concentração era no cruzeiro ou no largo Dom Dinis; muitos não iam por causa do preço, entre os apoiantes e dirigentes, destacou-se o Dr. Simões Coelho, médico do Clube, que nunca recebeu um centavo e não faltava aos jogos, como o médico da equipa, os jogadores também lutavam por amor á camisola. Eram outros tempos.



O Campo: Mas o Clube necessitava desesperadamente de um campo de futebol, pois os jogadores treinavam no alto da mina, onde está agora o depósito da agua e também ao fundo da Rua da Fonte, ao lago do Rio, junto às oliveiras, em condições deficientes. Não havia jogos em Odivelas e o campo mais próximo situava-se na Póvoa. Em 1952, Eduardo Veríssimo e António Neves (Tonica) tomaram uma decisão, arranjar um campo de futebol. Depois do jantar, no dia 7 de Fevereiro de 1952, ambos foram ter com D. Carolina proprietária do terreno, que na altura estava arrendado, desde do campo actual até à ponte, ao Sr. José Augusto das Neves. O António Neves (Tonica) ficou no cruzeiro, pois era mais tímido, enquanto o Veríssimo, que tinha maior desenvoltura, entrou na casa da D. Carolina. O Veríssimo regressou cerca da meia noite. Vinha feliz e comunicou ao Neves (Tonica), que continuava no cruzeiro paciente a espera :”Está resolvido. Vamos pagar 150 escudos por mês, mas já temos campo”. Logo no dia seguinte, o Neves (Tonica) deu inicio às obras. Eram 6.30h da manhã, quando a sua picareta entrou em acção, deitando abaixo parte de um pombal em pedra preta, com grandes buracos, e que era particularmente estimado pela proprietária, que havia advertido :”Não deitem abaixo o pombal”. Mas para construir o campo era indispensável que o pombal “fosse abaixo”, pelo que o Neves (Tonica) não hesitou em dar inicio à obra, que teve de ser concluída pelos militares da Pontinha, com dinamite e tractores. A proprietária fingiu ignorar a tropelia, pois também ela se considerava já do Odivelas. Durante oito meses, o Neves (Tonica) esteve continuamente a construir um campo, dando parte de doente no seu emprego. Fazia um pouco de tudo: carregava tijolos, dava serventia, e até dormia nas obras muitas vezes, para guardar. Mas muitos outros ajudaram gratuitamente. As bolas que estão à entrada, junto ao portão, foram feitas pelo Asdrúbal Abel dos Santos. Mas o grande dinamizador foi, sem duvida, o Eduardo Veríssimo, pois graças a ele conseguiu-se o terreno e a colaboração dos militares da Pontinha, que cederam as máquinas (tractores, escavadeiras, máquinas de brocar) e pessoal (os militares tomavam as refeições no seu restaurante). Os materiais foram adquiridos na estância, ao Sr. Chico, que adiantava os fornecimentos, pagos à medida das possibilidades. Fazia-se recolha de fundos; uns davam dinheiro, outros materiais outros o seu trabalho. Em 1952, foi concluído o campo. Sobre ele escrevia o “Diário da Manhã” de 10/11/52: com notório exagero no que respeita à capacidade, “o novo campo terá a capacidade para 20.000 espectadores, custará cerca de cem contos e será inaugurado no dia 23 do corrente”.

Boletim do Jogo Inaugural do Estádio Diogo José Gomes


A expansão: A equipa de futebol conseguiu bons resultados e rapidamente subiu ao regional. Um dos jogos mais marcantes teve lugar em Frielas, em 21/10/51. Ao intervalo, o Odivelas perdia por 3-0; no final, ganhou por 4-3. Entre os jogadores, destacaram-se o Francisco Martins (Chico Preto), Mário Popa, João Patrocínio, Asdrubal, Victor Manuel, Victor Manuel dos Santos (Maneguito). Em Agosto de 1955, a equipa deslocou-se à Ericeira e desta vez houve barulho fora de campo. O Desportivo da Ericeira e os seus adeptos, com a derrota 2-1, provocavam os Odivelenses e mandaram as mulheres “cozer meias”, deram uns empurrões e atiraram pedras á camioneta. Nessa altura, o guarda-redes, chamava-se “Tarzan”. Quando o clube perdia, chorava copiosamente durante muito tempo agarrado às redes. Mas outros bons jogadores também se destacaram: Valadares, Ramos (Preto da Urmeira), Asdrubal, Júlio, Veiga, Zé Calças. Outro episódio interessante: a fuga do árbitro até o Senhor Roubado num jogo, o árbitro estava a prejudicar o Odivelas, pelo que os populares perseguiram-no pelos caniços; o Victor pegou na sua viatura e conduziu o trio de arbitragem a Lisboa. Entretanto o Clube crescia… Em 1955 surgia a sede administrativa, na Rua Alberto Monteiro, e que foi durante muitos anos um Centro de Cultura. Em 1957 o Odivelas teve uma boa carreira no Distrital da terceira Divisão. O “Mundo Desportivo” de 29/5/57 escrevia: “no Domingo verificou-se mais uma jornada da segunda Divisão. O Odivelas depois de ter ganho ao Carcavelos, e beneficiando da derrota do Via Longa viu aumentar a sua vantagem de um para três pontos, o que a 3 jornadas do fim da prova, parece indicar que o título já deve ter dono”. A uma jornada do final da prova, o “Record” de 16/6/57 referia: “o virtual vencedor já está apurado. Trata-se do Odivelas que ao longo da prova se cotou como a melhor equipa. No entanto a sua tarefa revestiu-se de muitas dificuldades, devido a replica valorosa dos adversários”. No ultimo jogo, disputado em Odivelas, o Clube defrontou o velho rival. Eis a pitoresca descrição do Diário de Noticias de 17/6/57: “Desde manhã cedo que o Odivelas teve em festa porque o Odivelas Futebol Clube era já o campeão distrital da 3ª Divisão. Quando os jogadores locais aparecem em campo, foram aclamados entusiasticamente, tendo recebido ramos de flores por graciosas meninas. E, por seu turno também ofereceram lembranças aos seus adversários”. A cerca de 15 minutos do final, o Odivelas perdia por 1-3. Mas a passagem da meia hora, um bom remate de Rodrigues reduziu a diferença para 2-3, os campeões reagiram e a 5 minutos do final, Rafael estabeleceu o empate. O Odivelas acabaria por ascender à 2ª Divisão Distrital. Um dos seus adeptos e espectadores foi o grande actor Vasco Santana, alvo da curiosidade geral. Em 21 de Setembro de 1959, realizou a festa de homenagem ao jogador mais antigo do Clube, Asdrúbal Belo dos Santos, com o jogo entre o Odivelas e a velha guarda do Sporting. Ernesto M. Costa, Presidente da Direcção, descreveu-o: “É tão ardoroso na luta pela bola e tão vibrante a sua maneira de arrancar para a disputa da dita, que presentemente é difícil ver um jogador assim”.

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